Há 30 anos, tensão e pulsos cortados marcavam a gravação de “Legião Urbana”

janeiro 31, 2015 Sem comentários »

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Há 30 anos, chegava às lojas o álbum de estreia de uma banda de Brasília que gostava de ser chamada de punk, soava como Joy Division e tinha letras  politizadas. A capa branca, com uma foto em preto-e-branco dos integrantes ao centro, era apenas uma janela para toda a ingenuidade, raiva e confusão  de quatro adolescentes brasilienses: Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa Lobos e Renato Rocha.

Lançado na primeira semana de janeiro de 1985, o primeiro álbum da Legião Urbana foi a pedra fundamental de uma nova fase no rock BR, mais  poético e político, e o começo do fenômeno em que a banda se tornou. As sessões de gravação, no Rio de Janeiro, entre outubro a dezembro de 1984, no  entanto, foram repletas de intempéries, com momentos tensos no estúdio, troca de produtores e Renato Russo cortando os pulsos.

“O primeiro disco era para ser gravado com o Renato como baixista. A Legião começou com essa cozinha, eu na bateria e o Renato no baixo. A gente se identificava muito bem”, relembra o baterista Marcelo Bonfá, em entrevista ao UOL. Completava a formação Dado Villa Lobos, na guitarra. “Mas, nesse momento, o Renato cortou os pulsos dias antes de entrar no estúdio.”

Amigo próximo de Renato, Bonfá não acredita que houvesse uma razão pessoal e mais profunda para a tentativa de suicídio. “Eu posso especular. Ele tocava baixo e queria ficar mais solto. Ele queria ficar só cantando. Ele conseguia enxergar o cenário se formando, posso imaginar. Deu um nó na cabeça dele. Pode ter acontecido algo mais pessoal, mas estávamos muito juntos na época e não me lembro de um motivo a mais.”

O susto apenas forçou a entrada de mais um componente na banda, o baixista Renato Rocha, que Bonfá conheceu em uma das festas de rock na cidade-satélite. A conversa foi direta. “‘Vamos tocar, velho?’. ‘Vamos’. ‘Semana que vem?’. ‘Vamos’. Ele era uma figura louca, um cara gente fina”, lembra o baterista.

A gravadora EMI estava ansiosa para contratar a banda, após ver a Legião em ação no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Havia, naquele momento, um burburinho em torno do rock de Brasília. Os Paralamas do Sucesso haviam acabado de gravar “Química”, composição de Renato, no álbum de estreia da banda, “Cinema Mudo” (1983). Com a versão, Herbert Vianna pediu atenção para a cena que surgia na capital do país, distante da alegria e do colorido de bandas cariocas como Kid Abelha e Blitz, que tomavam as paradas.

A referência da Legião sempre fora outra, mais cinza, como a cidade de concreto de onde ela vinha. As novidades da música chegavam por lá por meio dos filhos de figurões, diplomatas e políticos que voltavam de viagem do exterior com a mala cheia de discos de grupos punks como Sex Pistols, The Clash e The Stooges.

“Nossa música era muito visceral, energética e tinha tudo a ver com o que estávamos passando ali. Entramos no estúdio com isso em mente. Eu queria que o disco fosse cru e pesado”, relembra Bonfá.

A petulância que só a juventude traz rendeu embates no estúdio e dança da cadeira entre os produtores. Nomes como Rick Ferreira e Marcelo Sussekind chegaram a produzir o álbum, mas acabaram sendo substituídos. “Eles queriam algo mais country, e não era o que queríamos fazer. A gente teve problema também com o [crítico musical e diretor de produção do álbum] José Emilio Rondeau. Não tinha muita conversa, não dávamos nem a chance. Queríamos tirar um som grosseiro, e o técnico de som, por melhor que ele fosse, não estava acostumado com aquela sonoridade. Falávamos: ‘Você quer isso que a gente tem? Então deixa com a gente’. Éramos muito jovens.”

A última cartada da gravadora foi a chegada de Mayrton Bahia, que havia produzido discos de Elis Regina e 14 Bis. Diplomático, Bahia conseguiu a confiança dos músicos em conversas intermináveis na madrugada. Era o cara que tentava conciliar o desejo da Legião com o propósito da gravadora. Chegou-se, então, a um denominador comum.

“Para as pessoas entenderem nosso som, precisava da mão de alguém da gravadora. Não adiantava chutar o balde. Ainda bem que não estava só eu, senão seria um barulho só. Eu achava que tinha ser gravado ao vivo no estúdio, todo o mundo tocando junto”, reconhece hoje Bonfá.  Mayrton Bahia acabaria se tornando um produtor fixo da banda até “O Descobrimento do Brasil” (1993).

Divulgação/Legião UrbanaEle tocava baixo e queria ficar mais solto. Apenas cantar. Ele conseguia enxergar o cenário se formando, posso imaginar. Deu um nó na cabeça dele. Pode ter acontecido algo mais pessoal, mas estávamos muito juntos na época e não me lembro de um motivo a maisMarcelo Bonfá, sobre o motivo da tentativa de suicídio de Renato Russo

“É direto isso aqui, não?”
Recheado de composições políticas, sem firulas, “Legião Urbana” é um registro da juventude entre o fim da ditadura militar e a lenta e difícil reabertura da democracia. Havia ali canções sobre relacionamentos, que se tornariam o foco da banda no futuro, como “Ainda É Cedo” e “Por Enquanto” –última música a entrar no álbum–, mas a temática do disco era ressoar o grito jovem das ruas. “Soldados”, “Geração Coca-Cola”, “O Reggae” e “Petróleo do Futuro” traduziam esse clima. Conta a lenda que Gonzaguinha estava na EMI quando mostraram a letra de “Geração Coca-Cola”, da banda recém-contratada. “É direto isso aqui, não? Nada cifrado”, teria comentado.

“Estava rolando uma oportunidade para isso. Lembro que um dia que eu estava na casa do Renato, estávamos na janela conversando, quando vimos um cara com a bandeira do Brasil correndo, e o camburão o seguindo. Desceram a porrada e colocaram o cara lá dentro. Até hoje você vê esse abuso de autoridade da polícia. Há um resquício ainda da ditadura. É muito louco”, observa o baterista.

Muitas das canções do primeiro álbum ganharam um significado especial para Bonfá anos depois. Entre elas, o o primeiro grande hit, “Será” –música emblemática que abre o álbum, direta, contagiante e de forte imagem poética. “Eu fui muito admirador do Renato, como pessoa e como letrista. Ele era um cara que conseguiu uma sensibilidade que não me bateu na época, até porque eu nem estava focado nisso.” E analisa: “É preciso mudar em você o que você quer mudar no outro. Não é isso que todo o mundo diz?”.

Fonte: Uol

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